Opinião 22/05/2017 23:35

Toda nudez será castigada

Por Dinarte Assunção

A controversa delação da JBS ‘democratizou’ as denúncias sobre políticos do Rio Grande do Norte, cumprindo a escala nacional das declarações dos irmãos Batistas e seus executivos, sendo Ricardo Saud considerado portador das notícias mais devastadoras, ao relatar pagamento de propina a 1.829 políticos através da doação de recursos eleitorais na campanha de 2014.

 

A insuperável vocação do Rio Grande do Norte para se deter às coisas inversamente  proporcionais à grandeza de seu nome colocou o debate no nível das galerias de esgotos da Caern, em torno da qual a delação da JBS se aplacou sobre o noticiário.

 

Antes de tudo é preciso pontuar o caráter de excepcionalidade quando um executivo de uma empresa registra que um governador e um deputado federal sentaram ao banquete do festim de recursos públicos.

 

Em qualquer lugar do mundo, isso seria a primeira página. Mas só numa província continuaria em primeira página mesmo sem desdobramentos para manter o assunto. E não deixar de noticiar não faria da notícia menos notícia. Cada um tem direito a ter seus próprios argumentos, mas não seus próprios fatos.

 

Isso posto, o enredo em que foi envolvido o governador do Estado e seu filho merece ser olhado além do que se vê. Ou do que se quer ver.

 

Diz a lei que a propina está caracterizada com a vantagem ou a oferta dela. Vantagem sabemos que não houve, pois a Caern continua tão pública quanto os vídeos da delação da JBS. Se oferta houve, como diz o delator, estamos diante de um calote pelas mesmas razões elencadas anteriormente. Pública continua a Caern.

 

O instrumento da delação premiada tem sido a mais poderosa ferramenta desagregadora de organizações criminosas. Sua importância é incontestável, mas as circunstâncias demandam mudanças.

 

A lei que regulamente o entreguismo, por exemplo, não prevê a obrigatoriedade do delator entregar provas. Ele municia o Ministério Público com indícios. E esse vai atrás dos elementos cabais. Nesse meio tempo, no entanto,  caem os segredos dos termos de colaboração e lança-se à vala comum da condenação todo o conteúdo que ainda precisa ser checado.

 

De mais a mais, é acintoso que alguém se sente para narrar crimes e depois desembarque no aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova York, para usufruir das recompensas dos crimes que admitiu ter praticado.

 

Daqui sigo intransigente na defesa do cumprimento das leis. Até uma evidência conclusiva de que a Caern seria privatizada para o grupo J&F em troca da doação eleitoral de 2014, configurando propina, não há ilegalidade.

 

Desnudem os reis em busca do ilícito e toda nudez será castigada. O que não vale é ampliar o direito ao próprio argumento para construir o próprio fato.

Dinarte Assunção

Biografia Dinarte Assunção é jornalista formado pela UFRN. Atuou em redações como repórter de cotidiano, economia e política. Foi comentarista político da TV Ponta Negra. Atualmente é reporter do Portal No Ar e compõe a equipe do Meio Dia RN, na 98 FM. É autor do livro Sobre Viver - Como Venci a Depressão e as Drogas. Nas horas vagas, assa panquecas.

Descrição Ponto ID é um blog para noticiar o que importa. E nada mais.