Opinião 28/06/2017 11:24

Por que a maioria dos políticos exibe uma extraordinário nível de imbecilidade

Por Dinarte Assunção

O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente. É um dos ensinamentos mais conhecidos de Lord Acton (1834-1902). Assino embaixo.

Experiência pessoal: em 20 anos de jornalismo, conheci muitos políticos e entrevistei vários. Com raríssimas exceções, todos exibiam um nível de imbecilidade que me impressionava e assustava. Não existem diferenças ideológicas. Bastava ocuparem lugares de poder para a imbecilidade se manifestar.

Cautela: não falo de “imbecilidade” no sentido prosaico do termo -burrice, estupidez, ignorância- embora existissem exemplares que também cumpriam esse papel.

Não, não. Falo de um outro tipo de imbecilidade: uma certa alienação face ao mundo, como se este mundo não existisse. Eu, modestamente, habitava o planeta Terra. Eles já estavam numa galáxia distante, onde os gestos, a linguagem e até o senso comum dos terráqueos deixavam de fazer sentido.

Tempos depois, quando assistia à queda de alguns -por incompetência, impopularidade ou até corrupção-, o que espantava não era apenas a infantilidade dos delitos. Era a surpresa dos personagens perante a queda.

Como se um gigante meteorito tivesse aterrado em cima das suas cabeças. Como explicar tanta alienação?

A ciência acaba de dar uma ajuda. Leio na “Atlantic Monthly” um artigo de Jerry Useem que recomendo. Conta o autor que a psicologia e as neurociências têm chegado às mesmas conclusões: o poder pode provocar no cérebro uma espécie de lesão.

Dacher Keltner, psicólogo de Berkeley, e Sukhvinder Obhi, neurocientista canadense, estudaram o assunto. Em termos comportamentais (Keltner) ou neuroestruturais (Obhi), o poder tende a inibir a capacidade empática dos poderosos.

Explico. Todos somos seres sociais. Todos agimos e reagimos de acordo com o reflexo que obtemos dos outros. Nenhum homem é uma ilha, já dizia o poeta.

Em situações de poder, essa dinâmica se altera, até por razões conjunturais: o homem poderoso tende a rodear-se por uma corte de bajuladores que aplaude automaticamente as suas palavras e gestos. Sem nenhuma sinalização exterior e dispondo de recursos que escapam aos meros mortais, o homem poderoso caminha na escuridão como se estivesse em pleno dia.

Para os meros mortais, os seus atos podem ser impulsivos, nefastos ou simplesmente criminosos. Para ele, são necessários, benéficos e muito acima da moralidade comum. Ele é um caso de impunidade porque os circuitos inibitórios estão, digamos assim, anestesiados.

Para a ciência, essas lesões podem ser temporárias ou duradouras. Mas existe uma forma de aliviar ou reverter os sintomas: por meio de lições de humildade. Como, por exemplo, recordar a um homem de poder os momentos da sua vida em que ele rastejou por este vale de lágrimas. Dizem os pesquisadores que o cérebro, até do ponto de vista imagiológico, volta a funcionar direito quando há essa “suspensão da irrealidade”.

Nada que os antigos não soubessem já. O imperador Marco Aurélio, caminhando por Roma, fazia questão de ter um escravo ao lado para lhe dizer ao ouvido: “És apenas um ser mortal”. Mas Marco Aurélio, apesar de mortal, era também um sábio -e a democracia não é o regime dos sábios.

Se as relações entre o poder e o cérebro podem ser problemáticas para os cidadãos, alguns ajustes inspirados pela ciência deveriam ser tentados.

O primeiro seria tornar os mandatos mais curtos (e, obviamente, não renováveis). Encurtar o tempo no poder é uma forma de profilaxia para que as loucuras da dominação não deformem a cabeça humana.

O segundo é admitir que mesmo mandatos curtos podem fazer os seus estragos. Deveria existir uma cláusula constitucional que obrigasse titulares de cargos políticos à realização de exames psicológicos e neurológicos regulares. Só com resultados limpos seria possível continuar.

Finalmente, se as lições de humildade tendem a repor equilíbrios perdidos, defendo há muitos anos a revitalização histórica do “bobo da corte”: depois das reuniões formais, o bobo entrava em cena para ridicularizar severamente o líder e os seus asseclas. O bobo seria intocável e inimputável.

Por outro lado, qualquer presidente ou ministro deveria ser obrigado a viver uma semana de cada mês nas mesmas condições de quem recebe o salário mínimo. Para adquirir uma certa perspectiva em falta.

“És apenas um ser mortal”, dizia o escravo ao imperador. Felizmente, já não há escravos. Mas ainda subsistem homens doentes que se julgam imortais.

Por João Pereira Coutinho, na Folha

Dinarte Assunção

Biografia Dinarte Assunção é jornalista formado pela UFRN. Atuou em redações como repórter de cotidiano, economia e política. Foi comentarista político da TV Ponta Negra. Atualmente é reporter do Portal No Ar e compõe a equipe do Meio Dia RN, na 98 FM. É autor do livro Sobre Viver - Como Venci a Depressão e as Drogas. Nas horas vagas, assa panquecas.

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